“A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.”*“The mind that opens to a new idea never comes back to its original size.”*

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Inovação, economia, direitos humanos, guerras, corporações, capitalismo, educação. Emissão de carbono, pobreza, dança. Formigas, histórias de vida, luta contra o câncer, finanças, preconceito, banheiro do futuro, valores e crenças, inteligência artificial. Máscaras humanas transformadas em aprendizado e mudança. Estes foram alguns dos assuntos abordados no TEDx Lausanne 2012, que aconteceu em Lausanne, na Suíça, em uma tarde chuvosa e fria de inverno.

Em uma palavra? Inspirador.

Ah, não, espere um pouco. Não estou fazendo jus ao evento. “Inspirador” é uma palavra muito batida, não transmite toda a magia, o despertar da alma, o entusiasmo propagados entre a plateia em meras 4 horas de apresentações. Talvez seja melhor utilizar a definição da palavra inspiração: iluminação do espírito.  Agora sim. Porque veja você: saí de lá, no mínimo, iluminada.

É a segunda vez que tenho o privilégio de participar de um evento do TED organizado independentemente (chamado TEDx, onde o “x” significa que o evento foi estruturado de forma independente da  instituição principal, ainda que obedeça a certas regras e ganhe o suporte necessário para que aconteça). Para quem ainda não conhece, o TED é uma organização não-governamental dedicada a “ideias que merecem ser divulgadas”, como eles mesmos se definem. A sigla TED corresponde à abreviação de três palavras em inglês: Tecnologia, Entretenimento e Design. No website www.ted.com é possível assistir a palestras, apresentações musicais e performances de vários artistas, pensadores, cientistas, professores e até cidadãos comuns que tenham vivido alguma experiência transformadora. Todas as conferências são gravadas e ficam disponíveis no site de graça – há mais de 1.000 palestras acessíveis apenas com um click do mouse. Imagine você, então, a variedade de assuntos e ideias apresentadas e difundidas a quem estiver disposto a ouvir.

O TEDx Lausanne do qual participei em 2010 foi “apenas” um broadcast do evento que estava acontecendo em Nova Iorque, intercalado com algumas palestras de pensadores locais e uma dinâmica de grupo no final, onde nos juntamos em uma mesa redonda para discutir em torno do assunto: “O futuro que fazemos”. Foi um evento pequeno, contou com a participação de não mais do que 50 pessoas, mas nem por isso deixou de ser edificante.

Esperava mais ou menos o mesmo formato quando me registrei para o segundo, em 2012, cujo slogan, “O futuro não apenas acontece”, disparou minha imaginação e me obrigou a preencher o formulário de inscrição prontamente. E qual não foi a minha surpresa ao chegar num auditório enorme da Escola de Negócios de Lausanne, o IMD, e perceber que era um daqueles TEDx de verdade que já havia assistido várias vezes pela internet, com direito a palco especial e tapete vermelho para os palestrantes e mais de 350 participantes. Oba!

Fico procurando adjetivos para definir o que senti enquanto, sentada na plateia, ouvia o jornalista Edward Girardet contar sobre o período em que cobriu conflitos no Afeganistão e de como escapou da morte por causa de uma promessa feita à esposa de voltar para casa na semana de seu aniversário. Ele chamou a atenção para a necessidade de treinar melhor os jornalistas que atuam em situações de crise, já que as informações reportadas por eles são cruciais para a tomada de decisões de governos e outras instituições que podem comprometer irreversivelmente a vida das populações afetadas. Sabe aquele arrepio na espinha que você sente quando está diante de uma pessoa incrível que compartilha uma experiência única? Pois é.

Algumas palestras depois, e senti um sorriso se formar prontamente em meus lábios ao imaginar o que poderia vir daquele senhor, digamos, diferente, que havia acabado de subir no palco. Vidrada em sua roupa rosa pink e paletó colorido, que contrastavam com a vasta e comprida cabeleira branca e o óculos marcante, ouvia atentamente o designer disléxico Steve Edge, que, sem um slide sequer, conseguiu prender completamente os espectadores apenas com suas histórias e um microfone. Ele nos contou como, sem querer, ofereceu o primeiro emprego para a neta do cara que havia ajudado sua mãe vários anos antes, quando, no alto de seus 14 anos, ela teve que começar a trabalhar para sustentar a família em meio a dor de ter perdido seu amado pai. Antes que o vídeo se torne disponível na internet, e para cutucar um pouquinho a imaginação de vocês, deixo aqui a transcrição da frase mais marcante durante seus 15 minutos no palco: “Vista-se como se estivesse indo para uma festa todos os dias, e a festa virá até você”.

Infelizmente não tenho espaço para descrever todas as maravilhosas lições de vida e de mundo transmitidas naquela tarde. Mas a última palestra foi, para mim, a melhor maneira de fechar o evento com chave de ouro. Após um breve vídeo sobre o documentário musical 1 Giant Leap 2 (link abaixo), Jamie Catto, vestido de maneira simples, adentrou o palco equipado apenas com um microfone. Co-fundador de uma das minhas bandas preferidas, Faithless, ele tocou num assunto delicado: a energia que gastamos nos escondendo atrás de máscaras. Ousou dizer que, se nos libertássemos destas falsas muletas e amarras e nos atrevêssemos a ser autênticos, permitindo que os outros fizessem o mesmo, seríamos tão mais unidos, e nossas relações, tão mais humanas. Transmito aqui, com minhas palavras, um exercício que ele propôs a todos nós: “Pensem em uma pessoa que vocês não gostam. Agora, pensem naquele comportamento característico daquela pessoa que vocês realmente não conseguem suportar. O que aconteceria se eu pedisse que vocês escrevessem essa palavra em seus crachás, e andassem com ele exposto por aqui a tarde inteira, encarando uns aos outros?” Muitas vezes desenvolvemos estas características, continuou ele, como defesa a alguma situação que nos trouxe sofrimento no passado. “Reflitam sobre isso. Tragam sentimentos e comportamentos à tona que um dia foram úteis. Perguntem-se porque eles foram úteis naquele tempo, e questionem se são úteis agora. E se eles não se encaixam na situação atual, reflitam sobre como poderiam usá-los, hoje, de uma forma diferente”. Sem dúvida, um exercício difícil. Mas que certamente nos tornaria muito mais livres, inteiros.

Em seguida, presenteou-nos com duas belas canções de composição própria, só voz e violão. Não me segurei, e, baixinho, comecei a cantar junto. Antes disso, meus pés já batiam de leve no chão acompanhando o ritmo.

Bom, termino este post com alguns links interessantes de vídeos, livros e projetos mencionados no evento. Provavelmente todas as palestras comentadas aqui, e muitas outras, logo estarão disponíveis no website oficial.

Enquanto isso, convido você a se inspirar, sonhar, pensar em como pode contribuir para um mundo melhor. O valor de participar de eventos como esse se resume, na minha opinião, em fortalecimento. Na verdade, a palavra que tenho em mente, e que penso que se encaixaria melhor aqui seria “empowerment”, do inglês mesmo. Uma tradução literal chamaria o termo de “empoderamento”, mas  é difícil exprimir o significado exato que quero transmitir. Trocando em miúdos: sinta que sua ideia é importante e você pode, sim, contribuir para melhorar a vida de uma pessoa, resolver um problema de sua comunidade, agir para construir um país mais justo. Portanto, não fique calado. Pense, Aja, Fale, Compartilhe suas ideias. Como Voltaire um dia disse: “Ideias são como barbas: o homem só tem uma quando ela cresce”. Sendo assim, divida. Uma ideia só cresce quando muitas mentes, com perspectivas e visões diferentes contribuem, modificam, aprimoram, e aplicam na prática. Assim como a missão do TED, acredito piamente que ideias devem ser espalhadas, divulgadas, alastradas, disseminadas. Pode me chamar de louca, ingênua ou sonhadora. Mas eu acredito que, com a ajuda de outros loucos, ingênuos e sonhadores, posso sim deixar minha marca no mundo. E você?

TED: http://www.ted.com

TEDxLausanne: http://tedxlausanne.org/

IMD: http://www.imd.org/

Livro: Edward Girardet, Killing the Cranes: A Reporter’s Journey Through Three Decades of War in Afghanistan

http://www.amazon.com/Edward-Girardet/e/B001K798FA

Steve Edge: http://www.steve-edge.com/

Jamie Catto:

1 Giant Leap 2: What about me?

Projeto 15 minutes of Friendhsip: http://www.15minutesoffriendship.webs.com/

Vídeos apresentados:

Raghava KK: Shake up your story

http://www.ted.com/talks/lang/en/raghava_kk_shake_up_your_story.html

Derek Sivers: How to start a movement

http://www.ted.com/talks/lang/en/derek_sivers_how_to_start_a_movement.html

Geoff Mulgan: A short intro to the Studio School

http://www.ted.com/talks/lang/en/geoff_mulgan_a_short_intro_to_the_studio_school.html

Rives: A story of mixed emoticons

http://www.ted.com/talks/lang/en/rives_tells_a_story_of_mixed_emoticons.html

* Frase do título de autoria de Albert Einstein.